Aborígenes

Acredita-se que os grupos aborígenes chegaram na Austrália entre 65 mil a 45 mil anos atrás. As fontes para compreender esses grupos são apenas os vestígios materiais e a oralidade dos grupos, e o encontro com os colonizadores ingleses no final do século XVIII em diante. É válido salientar, que foram os colonizadores que construíram os aborígenes como um povo primitivo, pois limitaram a descrevê-los a partir de seus padrões e não tentaram compreendê-los. Os aborígenes têm um sistema complexo de compreender o tempo e as relações humanas, que ficou denominado O Tempo do Sonho (Dreamtime), Alcheringa na língua Aranda, onde presente e passado estão juntos, acumulados no conhecimento ancestral e a existência está situada no sonho, que precede o nascimento e sucede a morte, desta forma os aborígenes tem dificuldades de compreender conceitos como Progresso e o tempo linear teleológico (Passado-Presente-Futuro). Por meio dos sonhos os aborígenes conseguem se comunicar e compreender a sua existência, pois dão sentido aos sinais apresentados nos sonhos da comunidade, estabelecendo assim os valores e as leis da sociedade aborígene.

Aborígenes. Foto: LittlePanda29 / Shutterstock.com

Os aborígenes são nômades, caçadores e coletores, e a sua religião tem uma relação direta com os elementos da natureza, considerada animista. Os cães são os únicos animais domesticados por eles. A caça do canguru e a pesca são um dos principais sustentos, e eles utilizam o arco e flecha, bumerangues, bastões e lanças, além da coleta de mel e vegetais. Os casamentos são sempre realizados quando o casal é formado de primos de segundo grau, em algumas ocasiões ocorre uniões entre os clãs. Muitos aborígenes são cremados em rituais, e apenas as pessoas mais importantes do clã são conservadas em troncos ocos. Muito da arte aborígene tem a função de comunicação, as músicas e as pinturas estão relacionadas com a possibilidade de contar histórias do próprio povo, das divindades, retratando muitas vezes cenas do cotidiano.

No século XVIII, os europeus encontraram um número estimado de aproximadamente 300 mil aborígenes, que estavam divididos em pelo menos quinhentos grupos étnicos diferentes, que variavam entre 100 e 1500 indivíduos, e falavam umas duzentas línguas, – atualmente apenas vinte línguas estão preservadas. Uma das passagens mais tristes da história australiana no século XX ficou marcada pelo racismo e o etnocentrismo conhecida como “Geração roubada” que ocorreu entre os anos de 1910 e 1970. Neste período mais de 100 mil crianças mestiças aborígenes e brancas passaram por uma política de assimilação cultural em centros educacionais, que tinham a função exclusiva de incutir a cultura ocidental e extinguir qualquer resquício das culturas aborígenes. Vale salientar que os aborígenes passaram a ter direito de voto na Austrália apenas em 1967, e os aborígenes chegavam a ter uma população de um pouco mais de 40 mil nesse ano, podemos perceber neste número as causas das perseguições, violências e massacres que este grupo étnico sofreu ao longo do século XIX e XX. Ocorreram episódios constantes de envenenamento com arsênico na comida oferecida pelo exército, dizimando várias vilas. Outra prática de extermínio feita pelos colonizadores era disponibilizar bebidas alcoólicas gratuitamente para eles, principalmente o rum, que era consumido pelos aborígenes de forma contínua e muitos entravam em coma alcóolico, os ingleses se aproveitavam desse estado para promover guerras entre as aldeias, levando desunião entre eles e consequentemente a morte de muitos.

Nas primeiras décadas do século XXI, os aborígenes tiveram conquistas significativas, como a criminalização do racismo e um pouco mais de trinta por cento da população completa o ensino superior. Os aborígenes ainda sofrem muitos reveses, tais como salários inferiores, a taxa de desemprego é cinco vezes superior, a taxa da mortalidade infantil é o dobro, vivem em média dezoito anos menos, além de serem a maioria da população carcerária. Os aborígenes estão resistindo a cada dia, entrando em cargos políticos, promovendo debates sobre a sua história e importância da proteção de sua cultura para a os australianos.

Referências:

Noel G. Butlin. Economics and the Dreamtime: A Hypothetical History. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015.

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